Rede de Sororidade: Confira como foi a residência lunar em Pataxó Hahahãe

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O projeto Redes de Sororidade é mais uma forma de potencializar a rede Pelas Mulheres Indígenas.

Entre novembro de 2017 e março de 2018 mulheres da rede Dragon Dreaming Brasil viajam até as aldeias da rede dos Pontos de Cultura Indígenas do Nordeste para fortalecer os grupos locais de mulheres indígenas com oficinas de DRAGON DREAMING. Cada aldeia recebe entre 01 ou 02 dragons dreamings para um período que varia entre 18 e 28 dias.

As oficinas se adequam as demandas de cada grupo local, alguns grupos querem se formalizar como associação, outros querem aprender a elaborar projetos, outros desejam aprender novas formas de fazer uma gestão colaborativa. E acima de tudo as oficinas tem como intuito promover a participação das mulheres nas organizações de base das aldeias.

Confira abaixo o relato das dragons Anna Carolina e Suzana que fizeram juntas a imersão lunar na aldeia Pataxó Hahahãe.

“A nossa residência lunar em Pataxó Hãhãhãe durou em torno de 18 dias. Chegamos no
dia 16 de novembro para realizar uma oficina DD com algumas lideranças mulheres da região e
membros da equipe da Thydêwá. Inicialmente não sabíamos do evento que o grupo de
mulheres estava planejando, foi uma ótima surpresa para nós. Mesmo com poucos encontros
com o grupo de mulheres, pelo desafio da distância para todas, consideramos esse período
como bem produtivo com o grupo. Realizamos 3 encontros mais formais com o grupo de mulheres antes do evento e conseguimos nos conectar em sororidade, compartilhar ferramentas de gestão DD, praticar a escuta profunda, brincar juntas, nos cuidar, compartilhar geladinhos no calor e aprender umas com as outras. Segundo relatos do grupo de mulheres todas as aldeias tem algum ponto de internet, mas não em todas as casas. Soubemos que a escola de Caramuru (ponto central entre as aldeias) não tinha internet, as professoras trouxeram a proposta de instalar um ponto de acesso contando com o financiamento dos pais dos alunos.

A coordenação do grupo de mulheres Hãhãhães tem um grupo de WhatsApp, o grupo estava bem ativo por conta da organização do evento. O evento das mulheres foi amplamente divulgado por elas via WhatsApp, na aldeia e rede de contatos das mesmas. Das 6 mulheres, 2 tinha muita dificuldade de acesso a internet por conta da falta de antena e sinal em sua localidade, para falar com as mesmas, precisam mandar recado pela vizinha e elas se atualizam quando vão à lugares que podem conectar internet. Durante nossa estadia trocamos com Greicy (Bolsista do Ponto de Cultura) orientações sobre comunicação digital, criação de posteres digitais e vídeo digital. Observamos nela um interesse e talento para tecnologias digitais. Ela foi desenvolvendo esse talento com autonomia e criatividade. Ficamos impressionadas com a capacidade delas de organizarem o evento, dar conta da logística da cozinha, recepcionar as pessoas para dormirem, conduzir o evento e ainda se divertirem. Nesses dias de residência conseguimos realizar o evento passando pelas 4 fases de um projeto DD.

Nós incentivamos e apoiamos o protagonismo das mulheres indígenas compartilhando ferramentas DD nas fases do Sonhar, Planejar, Realizar e Celebrar. Percebemos como a metodologia DD pode ser transmitida de maneira simples e faz total sentido nas comunidades indígenas, muitas práticas (como compartilhar os sonhos, sentar em roda, trazer os elementos da espiritualidade para o centro) vem de forma natural. É muito motivador trabalhar com uma metodologia que se integra a comunidade. Entre reuniões, encontros, rituais, canções, escutas de lindas e divertidas histórias, também histórias memoráveis de lutas, trocas de informações, planejamento das ações de 2018, partilha de sonhos, apoios mútuos, amorosidade, celebrações, tivemos uma experiência entre Mulheres Fortalecidas, não foi à toa que o Encontro de Mulheres na aldeia Pataxó Hãhãhãe teve esse nome.

No encontro, Rita conduziu a atividade da “Árvore dos Sonhos”: Foram entregues dois post-its para cada uma das mulheres presentes. Em um dos papeis foi escrito o que passou no ano de 2017, que já foi realizado ou que não desejamos mais, e, no outro papel o sonho para o ano de 2018. Os papéis com o que descartamos, referente ao ano de 2017, ficaram de “Adubo da Árvore”, colocadas junto a raiz do galho e os sonhos ficaram pendurados nos galhos como frutos para o ano de 2018. As mulheres compartilharam seus sonhos e o também que elas não querem mais. Foi um momento que trouxe bastante união para o grupo e esperança de perceber que muitos sonhos são em comum. Também gerou um clima muito positivo e de empatia. A partir dos sonhos delas, emergiram 4 temas que se transformaram em grupos de trabalho. Os 4 temas foram os mais citados para os sonhos de 2018:
1 – União, Fortalecimento, Frequência dos Encontros de Mulheres;
2 – Horta/Roça Comunitária;
– Medicina Natural, Plantas e Ervas Medicinais;
4 – Autonomia e Geração de Renda.
Cada mulher foi para o grupo que mais a interessava e juntas elas planejaram as ações para 2018 dentro de cada tema. Depois em um clima bem celebrativo, elas compartilharam e apresentaram para todas as mulheres do encontro seus trabalhos.

Passarmos por todas as fases de um projeto DD trouxe um sentimento de realização e encorajamento, planejar as ações de 2018 trouxe foco e disposição renovada para a continuidade do trabalho desse grupo de mulheres e o acolhimento entre as parentes renovou a interconexão desta rede. Ficamos impressionadas com a potência do encontro feminino! Fomos agraciadas por poder colaborar na realização de um dos lindos sonhos dessas mulheres – um encontro de 2 dias, com mais de 150 participantes, colaborando para o aperfeiçoamento do planejamento e realização de mulheres indígenas. Bem satisfeitas com a parceria, sintonia e irmandade que se criou da dupla Anna e Su, o sentimento de que a sororidade começava entre as facilitadoras, dessa forma, ficou fácil encarar os desafios que vieram com a virose que adquirimos e dar o melhor de nós para apoiar as demandas que apareciam.

Também sentimento de aprendizagem e de missão cumprida, mais um trabalho utilizando a metodologia DD como apoio que se completou, a flexibilidade na forma, o exercício da organização de centro vazio, o exercício de celebrar frequentemente e a possibilidade de integrar a diversão com o trabalho. Sentimos muita gratidão pelo acolhimento das nossas irmãs e parentes, que integraram-nos sem distinção nas suas famílias e culturas. Uma experiência que rendeu bons frutos e deixou saudades.

Escute agora a web-rádia Cunhã com o programa rede de sororidade na aldeia Pataxó Hahahãe

 

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